Clonar DNA é fazer muitas cópias idênticas de um trecho de DNA — em geral, um gene — colocando-o dentro de uma célula que se multiplica rapidamente, como uma bactéria. Cada vez que a bactéria se divide, ela copia junto o gene inserido. Em pouco tempo, há milhões de cópias dele. E, se o gene tiver a receita de uma proteína, a bactéria passa a fabricá-la.
Não confunda
Clonagem de DNA não é clonagem de organismos, como a da ovelha Dolly. Aqui se copia só um trecho de DNA, não um ser vivo inteiro.
Para que serve?
Fabricar proteínas
Bactérias ou leveduras com um gene humano produzem insulina, hormônios, enzimas e componentes de vacinas.
Estudar um gene
Ter o gene isolado permite investigar o que a proteína faz e o que muda quando ele tem uma mutação.
Ter muitas cópias
Grandes quantidades de um mesmo trecho de DNA são úteis para outras técnicas, como o sequenciamento.
Criar transgênicos
É o primeiro passo para levar um gene de uma espécie para outra (o que é um transgênico?).
As ferramentas
- Enzimas de restrição — “tesouras” moleculares descobertas em bactérias. Cada uma corta o DNA sempre em uma sequência específica de letras: a EcoRI, por exemplo, corta onde aparece GAATTC. Muitas deixam as pontas com algumas letras soltas, que se encaixam com outras pontas cortadas pela mesma enzima.
- DNA ligase — a “cola”, que une pedaços de DNA de forma permanente.
- Plasmídeo — um pequeno anel de DNA que existe naturalmente em bactérias e é copiado independentemente do cromossomo. Os plasmídeos usados em laboratório, chamados de vetores, costumam levar um gene de resistência a um antibiótico, que funciona como marcador.
- Célula hospedeira — em geral a bactéria Escherichia coli, que é fácil de cultivar e se divide a cada 20 minutos, mais ou menos, em boas condições.
Passo a passo
1. Obter o gene
O trecho de DNA de interesse pode ser copiado de uma amostra por PCR ou fabricado diretamente em laboratório, letra por letra.
2. Cortar

Uma enzima de restrição abre o plasmídeo em um ponto específico. A mesma enzima é usada para cortar as pontas do gene, para que as pontas dos dois fiquem complementares e possam se encaixar.
3. Colar

O gene, chamado de inserto, é encaixado no plasmídeo, e a DNA ligase une as pontas. O resultado é um DNA recombinante: uma molécula que junta DNA de origens diferentes.
4. Colocar nas bactérias e selecionar

O plasmídeo é levado para dentro das bactérias, por exemplo com um choque de temperatura ou com pulsos elétricos. Esse processo se chama transformação, e só uma parte das bactérias recebe o plasmídeo. Por isso, elas são espalhadas em uma placa de ágar com antibiótico: só sobrevivem as que receberam o plasmídeo com o gene de resistência.
5. Escolher uma colônia

Cada bactéria sobrevivente se multiplica e forma uma colônia, um pontinho visível na placa com milhões de bactérias idênticas — é daí que vem o nome “clone”. Uma colônia é retirada com uma ponteira e cultivada em meio líquido, onde as bactérias continuam se multiplicando.
6. Extrair

Das bactérias cultivadas, extrai-se o plasmídeo, agora com muitas cópias do gene — ou a proteína que elas passaram a produzir.
Da bancada à farmácia
A técnica nasceu em 1973, quando Stanley Cohen, Herbert Boyer e colegas mostraram que era possível juntar pedaços de DNA de origens diferentes em um plasmídeo e fazê-lo funcionar dentro de uma bactéria. Poucos anos antes, a descoberta das enzimas de restrição tinha dado aos cientistas a “tesoura” necessária — e rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1978 a Werner Arber, Daniel Nathans e Hamilton Smith.
O primeiro grande resultado prático veio em 1982, com a aprovação da insulina humana produzida por bactérias, o primeiro medicamento feito por engenharia genética. Até então, a insulina usada por pessoas com diabetes era extraída do pâncreas de porcos e bois.
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Fontes
Cohen S. N., Chang A. C. Y., Boyer H. W., Helling R. B. Construction of biologically functional bacterial plasmids in vitro. PNAS 70, 3240–3244 (1973). doi: 10.1073/pnas.70.11.3240
The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1978. nobelprize.org/prizes/medicine/1978/summary
National Library of Medicine. From DNA to Beer: Harnessing Nature in Medicine and Industry — Recombinant DNA technology. nlm.nih.gov
Alberts, B., Heald, R., Johnson, A., Morgan, D., Raff, M., Roberts, K., & Walter, P. (2022). Molecular biology of the cell (7th ed.). W. W. Norton & Company.
Essa técnica na pesquisa
- Enzima que gera luz no frio extremo é descoberta em coral de mar profundo ↗
Para estudar a enzima, os pesquisadores inseriram o gene dela na bactéria Escherichia coli, que passou a fabricá-la em laboratório.
Agência FAPESP · estudo publicado na Biochemical and Biophysical Research Communications
