É comum ouvir que as bactérias “treinam” contra o antibiótico, ou que o corpo “se acostuma” com o remédio. Não é isso o que acontece. Quem fica resistente são as bactérias, e não a pessoa. E elas não aprendem nada: o antibiótico seleciona as que já conseguiam sobreviver a ele.
Uma questão de seleção
- A variação já existe. Uma infecção pode ter bilhões de bactérias. Toda vez que elas se dividem, o DNA é copiado, e de vez em quando surgem mutações. Por acaso, algumas delas tornam a bactéria menos sensível ao antibiótico.
- O antibiótico faz a triagem. O remédio mata as bactérias sensíveis. As poucas resistentes sobrevivem.
- As sobreviventes herdam o terreno. Sem a competição das outras, as resistentes se multiplicam e passam a resistência para as descendentes. É seleção natural, acontecendo em poucos dias.
Como se descobriu
Em 1943, Salvador Luria e Max Delbrück mostraram que as mutações que tornam bactérias resistentes a um vírus surgem ao acaso, antes do contato com ele — e não como resposta ao ataque. Anos depois, Joshua e Esther Lederberg confirmaram o mesmo para antibióticos: encontraram bactérias resistentes à estreptomicina em colônias que nunca tinham sido expostas ao antibiótico.
Resistência que passa de mão em mão
As bactérias também podem trocar genes entre si, inclusive entre espécies diferentes. Muitos genes de resistência ficam em plasmídeos, pequenos anéis de DNA que passam de uma bactéria para outra. Assim, uma bactéria pode ficar resistente de uma vez, sem esperar por uma mutação. É também por isso que o problema se espalha tão rápido.
Por que isso importa
Cada uso de antibiótico dá uma vantagem às bactérias resistentes. Quando ele é usado sem necessidade — contra gripes e resfriados, que são causados por vírus, por exemplo — ou em excesso, inclusive na criação de animais, a seleção acontece mais vezes e as resistentes se tornam mais comuns. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as infecções por bactérias resistentes estiveram associadas a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021.
Por isso, antibiótico deve ser usado só com receita, na dose e pelo tempo indicados pelo profissional de saúde.
Fontes
World Health Organization. Antimicrobial resistance — fact sheet. who.int
Luria S. E., Delbrück M. Mutations of bacteria from virus sensitivity to virus resistance. Genetics 28, 491–511 (1943). doi: 10.1093/genetics/28.6.491
Lederberg J., Lederberg E. M. Replica plating and indirect selection of bacterial mutants. Journal of Bacteriology 63, 399–406 (1952). doi: 10.1128/jb.63.3.399-406.1952
Alberts, B., Heald, R., Johnson, A., Morgan, D., Raff, M., Roberts, K., & Walter, P. (2022). Molecular biology of the cell (7th ed.). W. W. Norton & Company.