Imagine que você quer aprender a consertar um motor de Ferrari, mas não tem uma Ferrari à disposição (e nem quer correr o risco de quebrá-la). Você começa praticando em um motor mais simples, barato e fácil de montar e desmontar.
Na ciência, a lógica é parecida. Como muitos experimentos não podem ser feitos diretamente em humanos, seja por questões éticas ou técnicas, os pesquisadores recorrem a outros organismos que compartilham “peças” biológicas conosco.
O que são organismos-modelo?
Organismos-modelo são espécies selecionadas para estudo intensivo em laboratório com o objetivo de compreender princípios gerais da vida.
Ao investigar esses organismos, é possível obter conhecimentos que também se aplicam a outros seres vivos, inclusive humanos.
Para ser um bom modelo, o organismo geralmente precisa ter algumas características:
Eficiência reprodutiva: Apresentam ciclo de vida curto e alta fecundidade (muitos descendentes em pouco tempo), o que permite observar várias gerações em dias ou meses, em vez de décadas.
Viabilidade logística: São organismos de pequeno porte, baixo custo de manutenção e fáceis de criar em ambiente controlado (laboratório).
Acessibilidade genética: Possuem genomas já sequenciados e são altamente passíveis de manipulação — permitindo que cientistas "liguem" ou "desliguem" genes específicos para estudar suas funções.
Conservação biológica: Guardam semelhanças genéticas e metabólicas fundamentais com outros seres vivos.
Somos mais parecidos do que parece
Apesar de parecerem muito diferentes, os seres vivos compartilham muitos genes e processos básicos porque descendem de um ancestral comum. Isso significa que mecanismos importantes — como divisão celular, expressão gênica ou morte celular — funcionam de forma muito semelhante em espécies distintas. Por incrível que pareça, compartilhamos uma quantidade enorme de genes com uma mosca ou um verme.

Os protagonistas da bancada
A escolha do modelo depende da pergunta que o cientista quer responder. Nem todo organismo serve para todo estudo. Conheça alguns deles:

mosca-da-fruta
Drosophila melanogaster
Clássica nos estudos de genética e desenvolvimento embrionário; ajudou a estabelecer princípios fundamentais da herança genética.
Imagem: © N. Gomple, 2008

bactéria
Escherichia coli
Fundamental para o desenvolvimento da biologia molecular. Foi essencial para entender como os genes funcionam e como o DNA é replicado.

levedura
Saccharomyces cerevisiae
Organismo eucariótico unicelular, utilizado para estudar biologia celular fundamental, genética e mecanismos moleculares, incluindo regulação do ciclo celular, reparo de danos ao DNA e função mitocondrial.
verme nematódeo
Caenorhabditis elegans
Organismo simples e transparente, ideal para estudar desenvolvimento, morte celular programada e neurobiologia.
Imagem: Bob Goldstein, 2007

peixe-zebra
Danio rerio
Muito usado em biologia do desenvolvimento e genética, pois seus embriões são transparentes e se desenvolvem rapidamente.

camundongo
Mus musculus
Principal modelo para estudar doenças humanas, imunologia, neurociência e genética, devido à grande similaridade genética com humanos.

planta
Arabidopsis thaliana
Modelo central da biologia vegetal. É usada para estudar genética, desenvolvimento de plantas, resposta ao estresse e fotossíntese.

macaco-rhesus
Macaca mulatta
Utilizado em pesquisas biomédicas mais complexas, como estudos de sistema imunológico, comportamento e desenvolvimento cerebral, devido à maior proximidade evolutiva com humanos.
Não são “naturais”: são construídos
Embora tenham origem na natureza, os organismos-modelo que vemos nos laboratórios não são exatamente iguais aos seus equivalentes “selvagens”. Ao longo do tempo, eles passam por um processo de transformação que envolve seleção, cruzamentos controlados e, muitas vezes, modificações genéticas. Além disso, são mantidos em condições altamente padronizadas — com controle de temperatura, alimentação, luz e reprodução — para reduzir variações e tornar os experimentos mais confiáveis.
Esse processo faz com que esses organismos se tornem versões ajustadas às necessidades da pesquisa: mais previsíveis, mais fáceis de manipular e mais comparáveis entre diferentes laboratórios. Por isso, eles são, ao mesmo tempo, organismos naturais e produtos da intervenção humana, construídos para funcionar como ferramentas científicas.
Ilustrações criadas com BioRender.com.
Ankeny, R. A., & Leonelli, S. (2020). Model organisms. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781108593014
Essa técnica na pesquisa
- Falha no reparo do DNA pode afetar o movimento
Camundongos sem o gene Xrcc1 reproduziram a degeneração do cerebelo; quando a proteína PARP1 também foi removida, os sintomas melhoraram.
Cultura Científica · estudo publicado na Nature
- Marcas químicas em proteínas ajudam a controlar o destino do RNA dentro da célula ↗
O estudo foi feito com a levedura Saccharomyces cerevisiae, que é fácil de cultivar e permite modificar seus genes.
Jornal da USP · estudo publicado no Journal of Proteome Research
- Enzima que gera luz no frio extremo é descoberta em coral de mar profundo ↗
O gene da enzima foi inserido na bactéria Escherichia coli, que passou a produzi-la em laboratório.
Agência FAPESP · estudo publicado na Biochemical and Biophysical Research Communications
- Estudo identifica proteína essencial para ativação de via molecular associada ao câncer ↗
Camundongos sem sistema imune funcional receberam células tumorais com e sem a proteína RASGRP4.
Agência FAPESP · estudo publicado na Scientific Reports
- Estudo identifica proteína que protege as células de defesa ↗
Camundongos sem a proteína XPC não desenvolveram inflamação intestinal em um modelo experimental da doença.
Agência FAPESP · estudo publicado na Nature Communications
