Como descobrimos o DNA · Capítulo 2 de 7

O mistério do “princípio transformante”

Ao misturar bactérias vivas e mortas, Frederick Griffith mostrou que a virulência podia ser transferida entre células por meio de um “princípio transformante”, abrindo caminho para a identificação do DNA como material hereditário.

Em 1928, o bacteriologista inglês Frederick Griffith publicou um experimento que revelou um novo fenômeno biológico: a transformação bacteriana.

Na época, ainda não se sabia qual molécula carregava a informação hereditária. Muitos cientistas acreditavam que as proteínas — mais complexas — seriam as candidatas naturais. O DNA era considerado simples demais para desempenhar essa função.

O trabalho de Griffith deu o primeiro passo para mudar essa história.

Fred Griffith e "Bobby", 1936. Fonte: Joshua Lederberg

O modelo experimental: pneumococos

Griffith estudava a bactéria Streptococcus pneumoniae, causadora de pneumonia. Ele comparou dois tipos de cepas:

  • Tipo S (smooth)
    • Possui cápsula polissacarídica
    • Forma colônias lisas
    • Virulenta (causa doença)
  • Tipo R (rough)
    • Não possui cápsula
    • Forma colônias rugosas
    • Avirulenta (não causa doença)

A cápsula protegia a bactéria do sistema imune do hospedeiro. Logo, apenas a cepa S era capaz de matar camundongos.

Colônias lisa e rugosa de Streptococcus pneumoniae

O experimento

Griffith inoculou diferentes cepas da bactéria em camundongos.


  • R viva → camundongo sobrevive
  • S viva → camundongo morre
  • S morta pelo calor → camundongo sobrevive
  • R viva + S morta pelo calor → camundongo morre

O resultado mais surpreendente foi o último.

Ao inocular a mistura de bactérias R vivas com bactérias S mortas pelo calor, os camundongos morriam. E, ainda mais impressionante: bactérias S vivas eram recuperadas dos animais mortos.

Isso indicava que algum componente das bactérias S mortas havia sido incorporado pelas bactérias R vivas, transformando-as permanentemente em virulentas.

A mudança era hereditária: as novas bactérias S continuavam produzindo cápsula nas gerações seguintes.

O “princípio transformante”

Griffith concluiu que existia um “princípio transformante” capaz de transferir características hereditárias entre bactérias.

Ele não identificou a natureza química do “princípio transformante”. Seu objetivo não era descobrir o material hereditário, mas compreender um problema epidemiológico concreto: como novas variantes de pneumococos surgiam e passavam a causar surtos de pneumonia.

No período entreguerras, a pneumonia era uma das principais causas de morte, e a emergência de diferentes “tipos” bacterianos tinha implicações diretas para controle e prevenção de epidemias. Griffith interpretou a transformação bacteriana como um mecanismo biologicamente relevante para a origem de novas formas patogênicas durante esses surtos (Méthot, 2016).

Ao investigar a dinâmica das epidemias, ele acabou revelando algo muito mais fundamental: que uma característica hereditária podia ser transferida entre células e estabilizada nas gerações seguintes.

Seu artigo original foi publicado em 1928:
Griffith, F. (1928). The Significance of Pneumococcal Types. Journal of Hygiene.

Primeira página do artigo de Frederick Griffith, "A importância dos tipos de pneumococo", 1928.

Por que isso foi tão importante?

O experimento demonstrou algo revolucionário:

  • Características hereditárias podem ser transferidas entre células.
  • Existe uma molécula capaz de carregar informação biológica estável.
  • Essa informação pode sobreviver mesmo após a morte celular.

Mas qual molécula era essa?

A resposta viria apenas em 1944, quando Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty demonstraram experimentalmente que o princípio transformante era o DNA.

Griffith, F. (1928). The significance of pneumococcal types. Journal of Hygiene, 27(2), 113–159. https://doi.org/10.1017/S0022172400031879

Méthot, P. O. (2016). Bacterial transformation and the origins of epidemics in the interwar period: The epidemiological significance of Fred Griffith’s “transforming experiment”. Journal of the History of Biology, 49, 311–358. https://doi.org/10.1007/s10739-015-9415-6