O experimento de Avery, MacLeod e McCarty
Ao remover seletivamente proteínas, RNA e outras moléculas de extratos bacterianos, Avery, MacLeod e McCarty demonstraram que apenas a degradação do DNA impedia a transformação bacteriana
POR THABATA OLIVEIRA | 05/03/2026

Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty
Em 1944, Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty publicaram um estudo no qual demonstraram que o DNA corresponde ao “princípio transformante” descrito anos antes por Frederick Griffith.
Griffith havia mostrado que um componente de bactérias do tipo S podia ser transferido para bactérias do tipo R, conferindo-lhes a capacidade de produzir cápsula e causar doença. No entanto, ele não identificou qual molécula era responsável por essa transformação.

A questão que Avery e seus colegas buscaram responder foi direta: qual é a natureza química do princípio transformante?

Como o experimento foi feito
Os pesquisadores prepararam um extrato a partir de bactérias S (virulentas) mortas pelo calor. Esse extrato continha diferentes tipos de moléculas celulares: proteínas, lipídios, polissacarídeos, RNA e DNA.

Em seguida, dividiram o material em amostras e trataram cada uma com enzimas ou reagentes capazes de remover seletivamente determinados componentes:
- Proteases → degradavam proteínas
- RNases → degradavam RNA
- Tratamentos químicos → removiam lipídios e polissacarídeos
- DNase → degradava DNA

Após cada tratamento, o extrato era adicionado a culturas de bactérias R, e observava-se se a transformação ainda ocorria. Nesse período, a transformação já podia ser realizada in vitro, sem a necessidade de animais.

O que foi observado
A transformação continuava ocorrendo quando proteínas, lipídios, polissacarídeos ou RNA eram removidos.
Entretanto, quando o DNA era degradado por DNase, a transformação deixava de acontecer.
A partir desses resultados, os autores concluíram que o DNA era o componente necessário para a transferência da característica hereditária entre as bactérias.
O trabalho foi publicado em 1944 no Journal of Experimental Medicine.

Recepção e contexto
Apesar das evidências experimentais, a conclusão não foi imediatamente aceita por toda a comunidade científica. Muitos pesquisadores ainda consideravam as proteínas candidatas mais prováveis ao papel de material hereditário, em parte devido à sua maior diversidade estrutural.
Além disso, como o estudo envolvia bactérias, alguns questionavam se o mesmo princípio se aplicaria a outros organismos.
Nos anos seguintes, novos experimentos — incluindo o trabalho de Alfred Hershey e Martha Chase em 1952 — reforçaram a conclusão de que o DNA é o material genético.
O estudo de 1944, portanto, representou uma etapa importante na consolidação dessa ideia.
Avery, O. T., MacLeod, C. M., & McCarty, M. (1944). Studies on the chemical nature of the substance inducing transformation of pneumococcal types: Induction of transformation by a desoxyribonucleic acid fraction isolated from pneumococcus type III. Journal of Experimental Medicine, 79(2), 137–158. https://doi.org/10.1084/jem.79.2.137
National Library of Medicine. (n.d.). Oswald T. Avery and the discovery that DNA is the genetic material. https://profiles.nlm.nih.gov/spotlight/cc/feature/dna