Síndrome de Rothmund-Thomson:
um enigma genético de 150 anos ainda em aberto
Da poiquilodermia ao risco de câncer, entenda os desafios e as novas descobertas sobre essa condição rara
POR THABATA OLIVEIRA | 27/03/2026
Publicado na revista Frontiers in Aging em novembro de 2023, o artigo “Rothmund-Thomson syndrome, a disorder far from solved” traz uma revisão sobre uma doença que, apesar de conhecida pela medicina há mais de um século e meio, ainda desafia cientistas e médicos ao redor do mundo.
origens

1868

August von Rothmund, oftalmologista alemão, relata casos de crianças de uma vila da Baviera apresentando catarata juvenil, baixa estatura e erupções cutâneas

1923

Matthew S. Thomson, dermatologista inglês, descreve pacientes com alterações de pele semelhantes às observadas por Rothmund, denominando a condição de “poiquilodermia congênita”

1957

William B. Taylor, dermatologista americano, propõe que os casos descritos por Rothmund e Thomson eram manifestações da mesma doença, cunhando o epônimo síndrome de Rothmund-Thomson
O que é a síndrome?
A Síndrome de Rothmund-Thomson é uma doença genética rara, de herança autossômica recessiva.
autossômica.
causada por alterações em genes localizados nos cromossomos autossômicos (não sexuais).

recessiva.
só se manifesta quando a pessoa herda duas cópias alteradas do gene — uma da mãe e outra do pai.

Sua principal característica é a poiquilodermia, uma alteração na pele que geralmente começa entre os 3 e 10 meses de vida. O que se inicia como uma vermelhidão e inchaço nas bochechas evolui para uma fase crônica com manchas claras e escuras, vasos sanguíneos dilatados (telangiectasias) e atrofia puntiforme. Para a confirmação diagnóstica, a presença da poiquilodermia deve vir acompanhada de, no mínimo, dois critérios clínicos adicionais:

poiquilodermia
+ dois achados clínicos:

catarata juvenil

anormalidades dentárias

hiperceratose

distúrbio gastrointestinal

incidência de cânceres

anormalidades nas unhas

cabelos, cílios e sobrancelhas escassos

baixa estatura

anormalidades esqueléticas
O que causa a síndrome?
Por muito tempo, a síndrome foi associada principalmente a alterações em um único gene: RECQL4.
No entanto, pesquisas mais recentes mostram que outros genes também podem estar envolvidos. Hoje, quatro genes principais são associados à síndrome:
- RECQL4 — ligado à replicação e ao reparo do DNA
- ANAPC1 — envolvido no controle do ciclo celular
- DNA2 — atua na replicação e no reparo do DNA
- CRIPT — participa do processamento de RNA e do funcionamento neuronal
Embora desempenhem funções diferentes, todos esses genes estão envolvidos em processos celulares essenciais, como a cópia do DNA, o reparo de danos ao material genético e o controle da divisão celular. Quando esses mecanismos falham, erros se acumulam ao longo do desenvolvimento, contribuindo para o surgimento das manifestações da síndrome.
Ao comparar pacientes com mutações em diferentes genes, o artigo identifica alguns padrões: alterações em RECQL4 estão associadas a maior risco de osteossarcoma, enquanto mutações em ANAPC1 e DNA2 se relacionam com catarata e deficiência de hormônio do crescimento, e alterações em CRIPT podem levar a atraso no desenvolvimento, deficiência intelectual ou convulsões. No entanto, como o número de pacientes estudados ainda é pequeno, essas associações não são definitivas.
De forma geral, o que se observa é que genes distintos, com funções diferentes dentro da célula, podem resultar em um mesmo quadro clínico. Por isso, a Síndrome de Rothmund-Thomson é considerada um exemplo de instabilidade genômica — uma condição em que o DNA acumula erros com maior facilidade —, o que ajuda a explicar sua associação com alterações no desenvolvimento, envelhecimento precoce em alguns tecidos e maior risco de câncer.
Por que está “longe de ser resolvida”?
Embora a tecnologia de sequenciamento genético tenha evoluído, a fisiopatologia exata de muitos sintomas da Síndrome de Rothmund-Thomson permanece um mistério. O artigo ressalta a necessidade de mais pesquisas para correlacionar cada tipo de mutação genética com as manifestações clínicas específicas (correlação genótipo-fenótipo), o que é essencial para melhorar o diagnóstico e o cuidado a esses pacientes.
Por que essa pesquisa é importante?
Esse conhecimento contribui para:

melhorar o diagnóstico de doenças genéticas raras

orientar o acompanhamento clínico dos pacientes

aprofundar o entendimento sobre instabilidade genômica

compreender processos relacionados ao envelhecimento e ao câncer
Este post foi baseado no artigo: Martins DJ, Di Lazzaro Filho R, Bertola DR and Hoch NC (2023), Rothmund-Thomson syndrome, a disorder far from solved. Front. Aging 4:1296409. doi: 10.3389/fragi.2023.1296409