Síndrome de Rothmund-Thomson:
um enigma genético de 150 anos ainda em aberto

Da poiquilodermia ao risco de câncer, entenda os desafios e as novas descobertas sobre essa condição rara

4 minutos

Publicado na revista Frontiers in Aging em novembro de 2023, o artigo “Rothmund-Thomson syndrome, a disorder far from solved” traz uma revisão sobre uma doença que, apesar de conhecida pela medicina há mais de um século e meio, ainda desafia cientistas e médicos ao redor do mundo.

origens

1868

August von Rothmund, oftalmologista alemão, relata casos de crianças de uma vila da Baviera apresentando catarata juvenil, baixa estatura e erupções cutâneas


1923

Matthew S. Thomson, dermatologista inglês, descreve pacientes com alterações de pele semelhantes às observadas por Rothmund, denominando a condição de “poiquilodermia congênita”


1957

William B. Taylor, dermatologista americano, propõe que os casos descritos por Rothmund e Thomson eram manifestações da mesma doença, cunhando o epônimo síndrome de Rothmund-Thomson

O que é a síndrome?

A Síndrome de Rothmund-Thomson é uma doença genética rara, de herança autossômica recessiva.

autossômica.

causada por alterações em genes localizados nos cromossomos autossômicos (não sexuais).

recessiva.

só se manifesta quando a pessoa herda duas cópias alteradas do gene — uma da mãe e outra do pai.

Sua principal característica é a poiquilodermia, uma alteração na pele que geralmente começa entre os 3 e 10 meses de vida. O que se inicia como uma vermelhidão e inchaço nas bochechas evolui para uma fase crônica com manchas claras e escuras, vasos sanguíneos dilatados (telangiectasias) e atrofia puntiforme. Para a confirmação diagnóstica, a presença da poiquilodermia deve vir acompanhada de, no mínimo, dois critérios clínicos adicionais:

poiquilodermia
+ dois achados clínicos:
catarata juvenil
anormalidades dentárias
hiperceratose
distúrbio gastrointestinal
incidência de cânceres
anormalidades nas unhas
cabelos, cílios e sobrancelhas escassos
baixa estatura
anormalidades esqueléticas

O que causa a síndrome?

Por muito tempo, a síndrome foi associada principalmente a alterações em um único gene: RECQL4.

No entanto, pesquisas mais recentes mostram que outros genes também podem estar envolvidos. Hoje, quatro genes principais são associados à síndrome:

  • RECQL4 — ligado à replicação e ao reparo do DNA
  • ANAPC1 — envolvido no controle do ciclo celular
  • DNA2 — atua na replicação e no reparo do DNA
  • CRIPT — participa do processamento de RNA e do funcionamento neuronal

Embora desempenhem funções diferentes, todos esses genes estão envolvidos em processos celulares essenciais, como a cópia do DNA, o reparo de danos ao material genético e o controle da divisão celular. Quando esses mecanismos falham, erros se acumulam ao longo do desenvolvimento, contribuindo para o surgimento das manifestações da síndrome.

Ao comparar pacientes com mutações em diferentes genes, o artigo identifica alguns padrões: alterações em RECQL4 estão associadas a maior risco de osteossarcoma, enquanto mutações em ANAPC1 e DNA2 se relacionam com catarata e deficiência de hormônio do crescimento, e alterações em CRIPT podem levar a atraso no desenvolvimento, deficiência intelectual ou convulsões. No entanto, como o número de pacientes estudados ainda é pequeno, essas associações não são definitivas.

De forma geral, o que se observa é que genes distintos, com funções diferentes dentro da célula, podem resultar em um mesmo quadro clínico. Por isso, a Síndrome de Rothmund-Thomson é considerada um exemplo de instabilidade genômica — uma condição em que o DNA acumula erros com maior facilidade —, o que ajuda a explicar sua associação com alterações no desenvolvimento, envelhecimento precoce em alguns tecidos e maior risco de câncer.

Por que está “longe de ser resolvida”?

Embora a tecnologia de sequenciamento genético tenha evoluído, a fisiopatologia exata de muitos sintomas da Síndrome de Rothmund-Thomson permanece um mistério. O artigo ressalta a necessidade de mais pesquisas para correlacionar cada tipo de mutação genética com as manifestações clínicas específicas (correlação genótipo-fenótipo), o que é essencial para melhorar o diagnóstico e o cuidado a esses pacientes.

Por que essa pesquisa é importante?

Esse conhecimento contribui para:

melhorar o diagnóstico de doenças genéticas raras
orientar o acompanhamento clínico dos pacientes
aprofundar o entendimento sobre instabilidade genômica
compreender processos relacionados ao envelhecimento e ao câncer

Este post foi baseado no artigo: Martins DJ, Di Lazzaro Filho R, Bertola DR and Hoch NC (2023), Rothmund-Thomson syndrome, a disorder far from solved. Front. Aging 4:1296409. doi: 10.3389/fragi.2023.1296409

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