Como o DNA se replica?

O experimento de Meselson e Stahl, considerado o mais bonito da biologia, mostrou que a replicação do DNA é semiconservativa

3 minutos

O experimento realizado por Matthew Meselson e Franklin Stahl em 1958 é frequentemente descrito como “o experimento mais bonito da biologia”, pela elegância com que resolveu uma questão fundamental: como o DNA se duplica.

Matthew Stanley Meselson, 1958. Fonte: California Institute of Technology.
Matthew Meselson (esq.) e Frank Stahl (dir.), 2015. Fonte: Parker Quartet

Após a proposta da estrutura da dupla hélice por James Watson e Francis Crick em 1953, surgiu uma hipótese natural: as duas fitas do DNA poderiam se separar e servir de molde para a síntese de novas fitas complementares.

Mas essa ideia precisava ser testada experimentalmente.

Três modelos possíveis de replicação

Na época, três modelos principais eram considerados:

1. Replicação conservativa

A molécula original permanece completamente intacta, enquanto uma nova molécula é sintetizada como uma cópia inteira.
Após a replicação, uma molécula seria totalmente antiga e a outra totalmente nova.

2. Replicação dispersiva

O DNA original seria fragmentado e misturado com DNA recém-sintetizado.
Cada molécula resultante conteria segmentos antigos e novos intercalados ao longo de toda a cadeia.

3. Replicação semiconservativa

As duas fitas da molécula original se separam.
Cada fita serve de molde para a síntese de uma nova fita complementar.
Assim, cada molécula filha contém uma fita antiga e uma fita recém-sintetizada.

O desafio era desenvolver um experimento capaz de distinguir entre essas três possibilidades.

A estratégia experimental

Meselson e Stahl idealizaram um experimento que permitia distinguir o DNA antigo do DNA recém-sintetizado. Eles trabalharam com a bactéria Escherichia coli e exploraram uma estratégia baseada em diferenças de densidade molecular.

Primeiro, cultivaram as bactérias em um meio contendo nitrogênio pesado (¹⁵N). Com isso, todo o DNA das células passou a incorporar esse isótopo.

Em seguida, transferiram as bactérias para um meio contendo nitrogênio leve (¹⁴N) e acompanharam, ao longo de várias gerações, a composição do DNA recém-sintetizado.

Como distinguir DNA antigo e novo

Para analisar os resultados, os pesquisadores utilizaram centrifugação em gradiente de densidade de cloreto de césio (CsCl).

Durante a centrifugação:

  • forma-se um gradiente de densidade na solução
  • as moléculas de DNA migram até a posição do gradiente onde sua densidade se iguala à densidade da solução, formando bandas distintas detectadas por absorção ultravioleta

Assim:

  • DNA com ¹⁵N forma uma banda mais pesada
  • DNA com ¹⁴N forma uma banda mais leve
  • DNA híbrido aparece em posição intermediária

O que aconteceu após cada geração

Após uma geração

Todo o DNA apresentava densidade intermediária.

Isso indicava que cada molécula continha:

  • uma fita antiga (com ¹⁵N)
  • uma fita nova (com ¹⁴N)

Ou seja, moléculas híbridas.

Após duas gerações

Duas bandas apareceram:

  • uma intermediária (DNA híbrido)
  • uma leve (DNA totalmente novo)

Esse padrão corresponde exatamente às previsões do modelo semiconservativo.

A conclusão

Meselson e Stahl demonstraram que:

  • cada molécula de DNA contém duas subunidades complementares
  • durante a replicação, essas subunidades se separam
  • cada nova molécula recebe uma subunidade parental e uma recém-sintetizada

Esse resultado confirmou experimentalmente o mecanismo de replicação previsto pelo modelo da dupla hélice.


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