A descoberta do DNA
84 anos antes da dupla hélice de Watson e Crick, um cientista de apenas 25 anos foi o primeiro a isolar o DNA
POR THABATA OLIVEIRA | 03/03/2026

Um jovem cientista na cozinha de um castelo
Friedrich Miescher era um jovem médico e bioquímico suíço que trabalhava no laboratório de Felix Hoppe-Seyler, na Universidade de Tübingen, na Alemanha. O laboratório funcionava na antiga cozinha do castelo da cidade.
As condições eram difíceis. Para obter grandes quantidades de células do sistema imune, Miescher coletava pus de bandagens hospitalares usadas. A partir dessas células, ele desenvolveu um protocolo químico cuidadoso: digestão com proteases, extrações com soluções alcalinas e precipitação com ácido.
O resultado foi a obtenção de uma substância até então desconhecida.


Uma substância diferente de tudo o que se conhecia
Ao remover proteínas e outros componentes celulares, Miescher isolou uma substância:
- rica em fósforo
- insolúvel em ácido
- solúvel em meio alcalino
- quimicamente distinta das proteínas
Por estar associada exclusivamente ao núcleo celular, ele a chamou de “nucleína”.
O artigo foi finalmente publicado em 1871:
Miescher, F. (1871). Ueber die chemische Zusammensetzung der Eiterzellen.

Miescher não apenas isolou a molécula que hoje chamamos de DNA, mas também desenvolveu as técnicas fundamentais para sua extração.
Do pus ao salmão
Nos anos seguintes, Miescher aprofundou seus estudos e conseguiu isolar a mesma substância a partir do núcleo de espermatozoides de salmão. Ele percebeu que essa “nucleína” estava sempre presente no núcleo e frequentemente associada a proteínas básicas, que mais tarde ele chamou de protaminas.
Hoje sabemos que ele estava observando aquilo que chamamos de cromatina: DNA associado a proteínas. Mas, na época, os termos ainda não existiam.
Uma intuição sobre hereditariedade
Embora Miescher não conhecesse a estrutura do DNA nem sua função precisa, ele intuiu algo notável: essa substância poderia estar relacionada à hereditariedade.
Em 1874, ele chegou a escrever que, se uma única substância fosse responsável pela fertilização, essa substância deveria ser a nucleína.
Mais impressionante ainda: em uma carta privada de 1892, Miescher especulou que a hereditariedade poderia depender da organização tridimensional das moléculas — algo próximo da ideia moderna de codificação de informação biológica. Ele sugeriu que pequenas diferenças estruturais poderiam armazenar enorme diversidade de características — uma analogia surpreendentemente próxima da ideia de um “alfabeto molecular”.
Por que quase não falamos dele?
Apesar da importância da descoberta, Miescher acabou sendo ofuscado pela narrativa clássica que coloca 1953 — o modelo da dupla hélice — como ponto de partida da biologia molecular.
O artigo de Lamm, Harman e Veigl (2020) argumenta que disputas disciplinares entre químicos, citologistas e geneticistas contribuíram para que seu papel fosse minimizado na historiografia da genética.
A publicação de 1871 marcou o primeiro isolamento do que hoje chamamos de DNA. Porém, o significado biológico do DNA só seria reconhecido no século XX, especialmente após os experimentos de Avery, MacLeod e McCarty (1944) e a descrição estrutural por Watson e Crick (1953).
Lamm, E., Harman, O., & Veigl, S. J. (2020). Before Watson and Crick in 1953 came Friedrich Miescher in 1869. Genetics, 215(2), 291–296. https://doi.org/10.1534/genetics.120.303195
Miescher, F. (1871). Ueber die chemische Zusammensetzung der Eiterzellen. Hoppe-Seyler’s Medicinisch-Chemische Untersuchungen, 4, 441–460.
University of Tübingen Museum. (n.d.). The discovery of nucleic acid. https://www.unimuseum.uni-tuebingen.de/en/exhibitions/visit-the-mut-exhibitions/castle-laboratory/the-discovery-of-nucleic-acid